PSTU na arquibancada

Para quem torce e luta. Não necessariamente nesta ordem...

2.7.10

AS ORIGENS DE CLASSE DO FUTEBOL


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Por Juzerley Santos

O filho da Revolução Industrial

Surgido no seio das elitizadas instituições de ensino inglesas e popularizado pela classe operária britânica na virada do século XIX para o XX, o futebol se tornou o esporte mais popular do planeta, um verdadeiro fenômeno de massas, capaz até de iniciar e suspender guerras[1]. Talvez por isso, o grande historiador marxista Eric Hobsbawn tenha definido o futebol como a “religião laica da classe operária”.
O futebol deve sua popularização entre os trabalhadores ao acelerado processo de urbanização ocorrido na Inglaterra no final do século XIX e fruto da Segunda Revolução Industrial. O surgimento das grandes cidades industriais alterou drasticamente o modo de vida da classe trabalhadora inglesa ao forçar a migração de numerosos contingentes de camponeses. O novo modo de vida ocasionou a troca dos esportes tipicamente rurais e aristocráticos, praticado em amplos espaços e rurais como a caça, rinhas de galo e mesmo o cricket, pelo football, uma modalidade tipicamente lúdica e coletiva, praticada em espaço reduzido e em tempo cronometrado e que possibilitava a participação de qualquer indivíduo.
Paixões e rivalidades
Como nos conta Nicolau Sevchenko (1984) “cada uma das grandes cidades industriais inglesas se veria dividida nesse período em duas imensas comunidades rivais, arrastadas ao mais apaixonado estado de loucura, quando os times que as representavam se viam frente a frente nos limites do gramado e dos noventa minutos. Era uma comoção, um remoinho (...)”.
As partidas eram “um cataclisma de nervos arrebentados e corações explodidos, não raro com algumas cabeças quebradas e olhos arroxeados. Era assim quando se enfrentavam, por exemplo o Manchester United e o Manchester City; o Nottingham Forest e o Nottinghan County; o Glasgow Celtic e o Glasgow Rangers; ou em Londres, qualquer partida em que se confrontassem os arqui-rivais Arsenal, Chelsea e Crystal Palace” (Sevchenko, idem).
Essas subterrâneas e para sempre irreconciliáveis divisões, ocorriam por diferentes motivos, ora opondo católicos contra protestantes[2], irlandeses ou gauleses contra anglo-saxões, ora opondo trabalhadores especializados contra não-especializados, residentes antigos da cidade contra imigrantes recentes e o que mais se imaginar, muitas vezes várias dessas razões agindo ao mesmo tempo.
Nas Américas: “Um filho do imperialismo britânico”
No continente americano o futebol surge como produto cultural de exportação do modo de vida britânico. Seja em Buenos Aires, Montevidéu, Rio de Janeiro ou São Paulo os protagonistas da expansão do esporte bretão são estudantes aristocráticos, jovens engenheiros e rudes marinheiros. Galeano cita em seu “Futebol ao Sol e à Sombra” (2004):
“Ao lado do manicômio, num terreno baldio de Buenos Aires, uns moços louros estavam chutando uma bola.
- Quem são? Perguntou um menino.
- Loucos – informou o pai. – Ingleses malucos.
O jornalista Juan José de Soiza Reilly evocou esta memória de sua infância. Nos primeiros tempos, o futebol parecia um jogo de loucos no rio da Prata. Mas em plena expansão imperial, o futebol era um produto de exportação tão tipicamente britânico como os tecidos de Manchester, as estradas de ferro, os empréstimos do banco Barings ou a doutrina do livre comércio. Tinha chegado pelos pés dos marinheiros, que jogavam nos arredores dos diques de Buenos Aires e Montevidéu (...). Foram cidadãos ingleses, diplomatas e funcionários da estrada de ferro e da companhia de gás, que formaram as primeiras equipes locais.
Ainda, citado por Galeano, “a primeira partida internacional jogada no Uruguai em 1889, confrontou os ingleses de Montevidéu e Buenos Aires sob um gigantesco retrato da Rainha Vitória” e “outro retrato da rainha dos mares amparou em 1895 a primeira partida do futebol brasileiro, que foi disputada entre os súditos britânicos da Gás Company e da São Paulo Railway[3]”.
Depois disso, em diversas fábricas começaram a surgir equipes, muitas vezes de forma espontânea como no Brasil foi o caso do tradicional Bangu Athletic Club[4], fundado em 1904 na fábrica têxtil localizada no subúrbio carioca do mesmo nome, por funcionários ingleses que completavam o time com operários brasileiros. Além do Bangu, os ingleses fundaram outros clubes como o Votorantim Athletic Club, fundado em 1902 na fábrica de tecidos Votorantim em Sorocaba, interior de São Paulo; e o Crespi FC, fundado em 1909 no bairro paulistano da Mooca e que viria a dar origem na década de 30 ao Clube Atlético Juventus (cujo o nome e as cores respectivamente foram inspirados nos tradicionais rivais Juventus e Torino da cidade fabril de Turim, localizada no norte da Itália). Além destes ao longo do início do século XX irão surgir diversos clubes formados por operários das fábricas no Rio e em São Paulo, como os famosos Sport Club Corinthians Paulista (1910) o Palestra Itália, em São Paulo. Porém, diversos outros clubes de bairros operários existiam.
De acordo com Sevcenko o futebol se difundiu por dois caminhos: "um foi dos trabalhadores das estradas de ferro, que deram origem às várzeas, o outro foi através dos clubes ingleses que introduziram o esporte dentre os grupos de elite." Enquanto a elite brasileira aderia ao futebol, este se desenvolveu entre os trabalhadores e se expandiu rapidamente pelo Brasil; os operários nas fábricas iam fazendo surgir seus times nas várzeas e os clubes de elite iam adotando o esporte em suas sedes. Waldenyr Caldas (????) conta que "o primeiro grande jogo, aquele que empolgou a platéia, foi realizado em São Paulo, em 1899, na presença de sessenta torcedores (...). de um lado, estava o time formado pelos funcionários da empresa Nobling; do outro, os ingleses que trabalhavam na Companhia de Gás, da Estrada de Ferro e do Banco (inglês). No final, um resultado sem novidades: vitória dos ingleses por 1 x 0.
Do lazer ao jogo sério
Então os clubes de elite e os times de operários nas várzeas se organizaram e passaram a montar competições entre seus pares. Porém, tanto no Rio de Janeiro quanto em São Paulo, as ligas oficiais continuaram elitizadas até meados do século XX[5], quando tiveram que aceitar times vindos da várzea em seus quadros.
O “football” já havia conquistado tanto as massas que fez as elites se dobrarem e reconhecer o protagonismo popular na prática no agora famoso esporte bretão. Para a construção desta identidade foi fundamental a atuação de diversos grupos e indivíduos.
No Rio de Janeiro, as torcidas dos times de fábrica como Andaraí, Bangu, Carioca e Mavílis eram consideradas, como as mais temidas do Rio de Janeiro nas primeiras décadas do século XX (PEREIRA, 2000). Isso porque, em meados dos anos de 1930 (embate amadorismo x profissionalismo), enquanto que os times tradicionais (Fluminense, Botafogo, América e Flamengo) representavam a camada mais rica da população, sendo o futebol visto como um passatempo praticado por moços de boas famílias, os times de fábrica e de subúrbio (incluídos aí Vasco da Gama e São Cristóvão) marcavam uma nova realidade, na qual o jogo, praticado por membros das camadas menos favorecidas, serviria como uma chance de superar a miséria, de ascensão social, com a adoção do profissionalismo (mesmo que disfarçado com o advento dos jogadores-operários ou "amadorismo marrom"[6].
A bola passou a ser encarada como um verdadeiro prato de comida. A disputa no campo de jogo passou a representar também uma luta pela própria sobrevivência. Os simpatizantes dos times de fábrica não iam aos campos para gritar o nome da empresa e sim para torcer pelos companheiros operários com os quais eles se identificavam e “entravam em campo”.
BIBLIOGRAFIA
GALEANO, Eduardo. O Futebol à Sol e Sombra. 2004.
SEVCENKO, Nicolau. Futebol, Metrópole e desatinos in: Revista USP. São Paulo,1984.
HOBSBAWN, Eric. Mundos do Trabalho, Novos Estudos sobre História Operária. Rio de Janeiro. Paz & Terra. 1987.
ANTUNES, Fátima M. R. Ferreira. O futebol nas fábricas in: Revista USP. São Paulo,1984.



[1] Ficaram famosos os casos da excursão do Santos de Pelé à África em 19??, que impôs uma trégua nos combates entre o governo e rebeldes na Nigéria e o conflito entre El Salvador e Honduras deflagrado após a derrota da seleção salvadorenha para a hondurenha nas eliminatórias de 1969 para a Copa do Mundo de 1970 no México.
[2] A centenária e violenta rivalidade entre Celtics (católicos) e Glasgow Rangers (protestantes) é considerada a maior do futebol mundial, envolvendo até torcedores de outros países como a Irlanda.
[3] Empresas de gás e ferroviária de capital britânico
[4] A identificação operária do Bangu era tão grande que até hoje seu estádio se denomina Estádio Proletário de Moça Bonita.
[5] É famosa a cisão ocorrida no Rio de Janeiro quando da inclusão do CR Vasco da Gama, com a desculpa deste time remunerar seus jogadores, o que na verdade também escondia o preconceito quanto à origem destes. Tendo criadas duas ligas, sendo o Botafogo FC bicampeão em uma e o Vasco em outra.
[6] Situação histórica do futebol brasileiro na qual os jogadores apesar de ainda serem considerados amadores mas recebiam remuneração (sob a forma monetária ou sob outras formas) para atuar por este ou por aquele clube.

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1 Comentários:

At 12:44 AM, Anonymous Anônimo escreveu:

Muito bom! Parabéns!

 

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